Palácio Nacional de Mafra

D. João V jurou erguer o monumento caso obtivesse sucessão do seu casamento com a rainha D. Maria Ana de Áustria, o que acabou por se tornar realidade em 1711, ano do nascimento da princesa Maria Bárbara.

Projetada pelo alemão Johann Friedrich Ludwig, de escola italiana, a construção da obra central do reinado de D. João V iniciou-se a 17 de novembro de 1717 e por ela passou a mão-de-obra de 52 mil trabalhadores. A sagração da Basílica deu-se a 22 de outubro de 1730, embora as obras se tenham prolongado até meados de 1737, dando lugar a um imponente Palácio. Inicialmente esboçado como um Convento para apenas 13 frades, o monumento acabou por se tornar num imenso edifício com todas as dependências e pertences necessários à vida quotidiana tanto da corte como de 300 frades da Ordem de S. Francisco.

A vida de corte do Magnânimo em Mafra acabou, contudo, por ser reduzida. O rei adoeceu com gravidade em 1742 e viria a falecer em 1750, assistindo-se a uma série de diferentes vivências no monumento ao longo do período monárquico. D. Maria I abriu-o às celebrações religiosas. O seu sucessor, D. João VI, instalou a corte no Palácio-Convento entre 1806 e 1807 – ano em que partiu para o exílio no Brasil após as Invasões de Napoleão Bonaparte. Em dezembro de 1807, as tropas francesas ocuparam o Palácio, sendo alguns meses depois substituídas por uma pequena fração do exército inglês que aqui permaneceu até março de 1828. Após o conturbado período das Lutas Liberais, o Palácio de Mafra tornou-se lugar de escape e tranquilidade para as famílias reais, de D. Maria II a D. Manuel II. E foi mesmo no torreão sul que o último rei de Portugal passou a sua derradeira noite em solo pátrio, de 4 para 5 de outubro de 1910, antes de partir para o exílio, aquando da Instauração da República.

Ainda durante 1910, em plena emergência do novo regime, o Palácio-Convento é classificado como Monumento Nacional, num emblemático reconhecimento da sua importância histórico. É uma homenagem e distinção que valoriza todos os seus espaços conventuais mais significativos: o Campo Santo e a Enfermaria, para além da Sala Elíptica ou do Capítulo, a Sala dos Atos Literários (Exames), a Escadaria e o Refeitório, estes últimos hoje pertencentes à Escola das Armas.

Acrescentos posteriores vieram enriquecer o monumento com obras de arte e a criação de outras dependências, como foi o caso da notável biblioteca conventual. O Palácio Nacional de Mafra possui uma das mais importantes bibliotecas portuguesas, com um valioso acervo de aproximadamente 36 mil volumes. Um verdadeiro repositório de conhecimento e obras-primas.

Para além disso, os dois carrilhões com um total de 98 sinos constituem o maior conjunto sineiro do século XVIII, a que se juntam os seis magistrais órgãos instalados na Basílica, palco de sublimes e inspiradores concertos.

Mosteiro da Batalha

Este excecional conjunto arquitetónico resultou do cumprimento de uma promessa feita pelo rei D. João I, em agradecimento pela vitória em Aljubarrota, batalha travada em 14 de agosto de 1385, que lhe assegurou o trono e garantiu a independência de Portugal.

As obras prolongaram-se por mais de 150 anos, através de várias fases de construção. Esta duração justifica a existência, nas suas propostas artísticas, de soluções góticas (predominantes) manuelinas e um breve apontamento renascentista. Vários acrescentos foram introduzidos no projeto inicial, resultando um vasto conjunto monástico que atualmente apresenta uma igreja, dois claustros com dependências anexas e dois panteões reais, a Capela do Fundador e as Capelas Imperfeitas.

D. João I doou-o à ordem de S. Domingos, doação a que não foram alheios os bons ofícios do Doutor João das Regras, chanceler do reino, e de Frei Lourenço Lampreia, confessor do monarca.

Na posse dos dominicanos até à extinção das ordens religiosas em 1834, o monumento foi depois incorporado na Fazenda Pública, estando hoje na dependência da Direção-Geral do Património Cultural (DGPC), assumindo-se como um espaço cultural, turístico e devocional.

Monumento nacional, integra a Lista do Património da Humanidade definida pela UNESCO, desde 1983.

Estação de São Bento

A primeira pedra foi lançada em 1900 pelo rei D. Carlos I, no local onde antes se encontrava o antigo convento de S. Bento de Avé Maria. O projeto inicial foi do arquiteto Marques da Silva, denotando no seu traço exterior influências da arquitetura que se praticava em França na época.

O projecto da Estação de São Bento começou em Paris, quando Marques da Silva, com o seu habitual sentido pragmático, escolheu o tema Gare Central para elaborar o seu trabalho de final de curso. Essa escolha era compreensível, não apenas pela ambição da cidade do Porto em construir esse equipamento, mas também se tivermos em conta que Victor Laloux, o seu mestre na École des Beaux-Arts, foi o arquitecto da gare de Tours e, em Paris, da Gare d’Orsay, obra maior da cultura beaux-arts.

A chegada da linha de caminho-de-ferro ao centro da cidade do Porto tinha sido precedida de várias hesitações. Para que ela fosse possível, para além da abertura do túnel de ligação à encosta dos Guindais, foi necessário demolir o Convento de Ave-Maria que ocupava o lugar das terraplanagens imprescindíveis para as plataformas de embarque. As infra-estruturas ficaram concluídas em Novembro de 1896 e nessa data chegou o primeiro comboio a São Bento, ainda sem gare. Em Dezembro desse mesmo ano, Marques da Silva defendeu o seu projecto académico em Paris e obteve o título de Arquitecto Diplomado pelo Governo Francês.

Regressado ao Porto, com um novo estatuto, Marques da Silva expôs o seu projecto em Maio de 1897, nos Paços do Concelho, obtendo um bom acolhimento público da sua proposta formal. Essa publicidade permitiu-lhe dirigir-se aos responsáveis pelas Obras Públicas sugerindo que o encarregassem do projecto para a gare que se teria de construir em São Bento. Para verificar a viabilidade da encomenda, foi pedido a Marques da Silva que apresentasse um projecto detalhado. Isso permitiu-lhe reformular os desenhos académicos e adaptá-los às circunstâncias construtivas e às particularidades específicas de São Bento. Após algumas hesitações políticas, em Setembro de 1899 foi-lhe finalmente adjudicado o projecto, sendo remunerado pelo trabalho a fazer e também pelas propostas que já tinha apresentado.

Durante alguns anos Marques da Silva desenvolveu várias versões de um primeiro projecto, reagindo aos sucessivos pareceres das várias comissões a que se submetiam os desenhos. Esse primeiro projecto, nas suas várias versões, caracteriza-se pela presença da grande nave metálica na composição da fachada principal. As principais questões em debate sobre os desenhos consistiam na disposição do serviço dos Correios e Telégrafos, anexo aos serviços de passageiros e bagagens, e em dúvidas sobre as metodologias de execução e concepção da estrutura metálica. Desde os desenhos iniciais era explícita a adopção de uma forma em U, com entrada central através da frente mais extensa e orientada para a Praça Almeida Garrett, de topo relativamente à orientação das linhas dos comboios.

Em 1903 começaram as obras de construção do edifício, seguindo um novo projecto que Marques da Silva entregou em Março desse ano. Ainda que tenha sido sujeito a alterações e ajustes posteriores, foi esse projecto que caracterizou os elementos fundamentais da Estação de São Bento tal como a conhecemos hoje, nomeadamente a opção de construir um grande vestíbulo independente da cobertura metálica das plataformas de embarque.

Com vários atropelos às suas competências como arquitecto, tendo inclusive chegado a ser dispensado da direcção das obras em 1909, a obra foi seguindo o seu curso. Em 1911 Marques da Silva projectou a Estação de Correios e Telégrafos que resolvia a relação do edifício com a rua do Loureiro e que nunca chegou a ser construída. Essa encomenda não significou o acréscimo da sua autoridade sobre a execução do projecto de que foi autor, pela qual continuou a batalhar até 1916. Nesse ano a obra da Estação ficou finalmente concluída e o hall da estação, com azulejos de Jorge Colaço, foi inaugurado nos festejos do sexto aniversário da República.

Da origem académica à expressão final da obra construída, a Estação de São Bento é um exemplo paradigmático da arquitectura beaux-arts. A composição da planta, ditada por uma lógica funcional objectiva, rege-se por um sistema de eixos ortogonais sobre o qual assentam volumes com uma unidade construtiva específica. À conjunção dessa massa volumétrica articulada o desenho confere um carácter coerente baseado num princípio decorativo específico. Neste caso, a materialidade do granito constitui-se como uma massa monumental onde as janelas e portarias, mais do que transparências, funcionam como perfurações num edifício compacto. Terá sido esse, eventualmente, o carácter mais original da Estação que, como monumento formador da identidade urbana, introduziu nas práticas construtivas da cidade um gosto inédito.