Capela dos Ossos, Évora

A intrigante Capela dos Ossos em Évora

A cidade de Évora é uma cidade repleta de monumentos históricos. Entre eles há um que se destaca pela inquietude que provoca a que o visita. Falamos, pois claro, da  Capela dos Ossos de Évora, um dos pontos de interesse turístico mais visitados da cidade.

A Origem da Capela dos Ossos

Reza a história que, durante o século  XVI, existiam cerca de 40 cemitérios na região de Évora. Cemitérios que ocupavam terrenos estratégicos para o crescimento da região e que rapidamente começaram a ser cobiçados, com o intuito de os utilizar para outros fins.

Consta que os monges franciscanos que por lá residiam nessa época, sempre ligados às questões mais espirituais da existência humana, procuraram “provocar pela imagem a reflexão sobre a transitoriedade da vida humana e o consequente compromisso de uma permanente vivência cristã”, aspectos intrinsecamente ligados à celebração da morte e próprios do período barroco que se vivia e procuraram simultaneamente resolver o problema colocado pela desocupação dos cemitérios.

Capela dos Ossos

Capela dos Ossos – Boris Kasimov/CC BY 2.0

A capela foi erigida e as paredes e pilares que a constituem foram meticulosamente revestidos com os ossos e caveiras humanas recolhidos dos referidos cemitérios.

O “conceito” pode ter sido baseado no Ossário de San Bernardino alle Ossa em Milão na Itália e acabou por ganhar alguma força no Sul de  Portugal, onde existem várias outras capelas de ossos, por exemplo em Faro, em Campo Maior e Monforte.

Arquitetura da Capela dos Ossos

A capela, construída no local do primitivo dormitório é formada por 3 naves de 18,70 m de comprimento e 11m de largura, entrando a luz por três pequenas frestas do lado esquerdo. As abóbadas são de tijolo rebocado a branco, pintadas com motivos alegóricos à morte.

Capela dos Ossos, Évora

Capela dos Ossos, Évora, fotografia por Feliciano Guimarães

É um monumento de uma arquitectura penitencial de arcarias ornamentadas com filas de caveiras, cornijas e naves brancas.

“Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”.

Além das paredes e pilares ornamentados com os ossos e crânios humanos, foram contabilizados cerca de cinco mil, existem ainda dois esqueletos completos pendurados por correntes numa das paredes. Um dos esqueletos é duma criança.

Esqueletos Pendurados na Capela dos Ossos em Évora

Esqueletos Pendurados – Patricia Feaster/CC BY 2.0

As ossadas dos 3 Monges também descansam na capela, dentro de um pequeno caixão branco junto ao altar.

Ossadas dos Monges – Ken & Nyetta/CC BY 2.0

“Nós ossos que aqui estamos pelos vossos esperamos”. Esta é a inscrição que podemos encontrar sobre a porta de entrada da Capela dos Ossos.

Inscrição na Entrada da Capela dos Ossos

Inscrição na Entrada da Capela dos Ossos – Nuno Sequeira André/CC BY-SA 2.0

A capela é dedicada ao Senhor dos Passos, imagem conhecida na cidade como Senhor Jesus da Casa dos Ossos.

Poema inscrito no interior da Capela dos Ossos, de Padre António da Ascensão Teles

Aonde vais, caminhante, acelerado? Pára…não prossigas mais avante; Negócio, não tens mais importante, Do que este, à tua vista apresentado. Recorda quantos desta vida tem passado, Reflecte em que terás fim semelhante, Que para meditar causa é bastante Terem todos mais nisto parado. Pondera, que influído d’essa sorte, Entre negociações do mundo tantas, Tão pouco consideras na morte; Porém, se os olhos aqui levantas, Pára…porque em negócio deste porte, Quanto mais tu parares, mais adiantas.

Notas

Entre julho de 2014 e outubro de 2015, a capela passou por obras de restauração de danos ocorridos com o tempo e construção de um museu de arte sacra e outro para exposições temporárias.

 

O Mosteiro de Seiça no Vale Encantado

O Mosteiro de Seiça, ou de Santa Maria de Seiça, é um dos edifícios mais místicos de Portugal. Atualmente encontra-se em ruínas num estado avançado mesmo depois de ter sido considerado em 2002 Imóvel de Interesse Público e em 2004 ter sido adquirido pela Câmara Municipal da Figueira da Foz.

Ao longo dos tempos o edifício foi sofrendo alterações pouco dignas da beleza que ostenta. Em 1871 foi parcialmente demolido e a pedra utilizada para obras num cemitério em Paião. Em 1888 sofreu novamente obras de demolição, desta feita por causa da construção do troço de caminho de ferro da Linha do Oeste. Por volta de 1900 foi vendido a particulares que o transformaram numa unidade industrial de descasque de arroz…

O Mosteiro de Seiça está fundado na freguesia de Paião, na Figueira da Foz.

Seiça e a lenda do abade João

A história de Seiça cruza-se com a lenda do abade João. Reza a lenda que este abade, responsável pela defesa do castelo de Montemor-o-Velho, se viu cercado pelos Mouros… Entre eles estava um tal de Garcia Janhes, que fora criado pelo Abade João , e que se passou para o lado dos Mouros depois de renegar a fé Cristã e de assumir o nome de Zulema.

Zulema tornou-se um dos mais odiados inimigos dos cristãos, e como era um conhecedor da região e do castelo aconselhou o exército mouro sobre a melhor forma de fazer o cerco, cortando todas as relações entre a fortaleza e o exterior.

A luta terá sido desesperante para a fração Cristã… em menor número e sem mantimentos, vendo-se numa situação insustentável, tomaram algumas medidas drásticas e decidiram fazer sacrifícios que retratam bem quer a abnegação e coragem dos cristão, quer a barbárie e carnificina daqueles tempos em que a vida humana valia tão pouco.

Decidiram então queimar tudo quanto tinham para que não caísse nas mãos dos inimigos, e levando o desespero mais além, decidiram degolar homens e mulheres que pela sua idade ou condição não se pudessem defender do inimigo. O abade João terá dado o mote e ele próprio terá degolado a sua irmã D. Urraca.

Depois de consumada a carnificina saíram os sitiados do castelo e deram luta aos Mouros. Sem nada a perder e sem esperança na vitória, terá sido o Abade João o mais valente… devastando tudo o que encontrava à sua frente, infligindo grandes estragos ao mais numeroso exercito inimigo e simultaneamente dando moral aos seus para que o seguissem na demanda.

Uma das primeiras vitimas do vigor do braço do Abade João foi Zulema, o ingrato pupilo. Esta morte terá desmoralizado as tropas mouras e por outro lado terá dado um animo extra os cristãos que cresciam destemidos fazendo com que os infiéis sobreviventes fugissem desordenadamente e procurassem refugio nas brenhas da outra margem do Mondego.

De nada valia aos mouros esconderem-se… os cristãos continuaram a perseguir e a matar sem qualquer piedade todo e qualquer infiel que encontrassem…

O cansaço era já muito e os poucos mouros sobrevivente tinham-se refugiado nas Alcoubas, distantes quatro léguas do campo da primeira batalha… ouviu-se então a voz do Abade João:

– Cessa, Cessa.

Os Cristãos obedeceram e descansaram da enorme luta nesta planície rodeada de montes. Passaram ali a noite e na madrugada do dia seguinte, chegaram à planície mensageiros provenientes de Montemor-o-Velho que traziam a boa nova… os desgraçados que no dia anterior tinham sido degolados afinal estavam vivos e de boa saúde. A noticia foi recebida com enorme alegria e logo o acontecimento foi tomado como milagre.

O abade João decidiu então renunciar a Montemor-o-Velho e passar ali naquela planície o resto dos seus dias, sendo seguido por alguns dos seus companheiros. Por volta de 850 mandou edificar ali uma capela que dedicou à Virgem.

Dessa ermida, que ruiu em 1590, nada resta. Em 1602, no mesmo lugar e por iniciativa de Frei Manuel das Chagas, foi construída a actual capela de Nossa Senhora de Seiça.

Capela de Nossa Senhora de Seiça

Capela de Nossa Senhora de Seiça

A poucos metros de distância desta capela encontra-se o Mosteiro de Santa Maria de Seiça, do qual se desconhece a data exata de fundação e cuja referência documental mais antiga data de 1162, pertencendo então aos Frades Crúzios.

 

Links Relacionados

http://mosteirodeseica.com/

https://www.facebook.com/SalvemOMosteiroDeSeica

http://ruinarte.blogspot.pt/2009/11/o-mosteiro-de-n-sra-de-seica.html