Caretos de Podence

Caretos de Podence. O Carnaval de Podence foi inscrito na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade, a 12 de dezembro de 2019.

O Carnaval de Podence constitui uma festividade cíclica da aldeia de Podence, Macedo de Cavaleiros, cujos principais protagonistas são os “Caretos de Podence”.

A indumentária e as máscaras “demoníacas ” dos Caretos de Podence

Os Caretos são personagens mascaradas com máscaras rudimentares onde sobressai o nariz pontiagudo. São confecionadas localmente utilizando materiais como o couro, a madeira ou o latão. São pintadas de vermelho, preto, amarelo ou verde.

A cor é também um dos atributos mais visíveis das vestes dos Caretos de Podence. Fatos de colchas franjados de lã vermelha, verde e amarela, com enfiadas de chocalhos à cintura e bandoleiras com campainhas.

Da sua indumentária, faz também parte um pau que os apoia nas correrias e saltos. A rusticidade do ambiente é indissociável desta figura misteriosa.

Durante as “sortidas”, realizadas de domingo-Gordo a Terça-feira de Carnaval, os Caretos de Podence percorrem as ruas principais da aldeia exibindo-se, fazendo diabruras e “chocalhando” os que passam, com os chocalhos que trazem à cintura.

No domingo de Carnaval há Feira em Podence

O Domingo de Carnaval é dia de feira em Podence, uma aldeia próxima de Macedo de Cavaleiros.

Mas é também nesse dia que logo pela manhã se inicia um dos rituais transmontanos mais interessantes e enigmáticos a assinalar o fim do ciclo de Inverno: a Festa dos Caretos.

É uma espécie de retoma da Festa dos Rapazes, que tem lugar por alturas do Natal, mas desta vez ligada aos rituais carnavalescos que assinalam o início dos constrangimentos da Quaresma e marcam o renascimento que a aproximação da Primavera representa para quem tira da terra o seu sustento.

Outrora, a «arruaça» começava bem cedo. Hoje não tanto, pois os rapazes solteiros, que são as figuras centrais deste ritual, ficam até altas horas da madrugada nas discotecas da região e só começam a juntar-se por volta das 10 horas da manhã para iniciarem as tropelias.

Mascaram-se, geralmente com vistosos fatos de franjas de lã de cores garridas, máscaras de lata, enfiadas de chocalhos à cinta e bandoleiras com campainhas e guizos.

Atravessam a aldeia e sobem a rua que conduz à feira, entretanto montada ao longo da estrada para Macedo [de Cavaleiros].

Avançam em grande algazarra acentuada pelo marulhar dos guizos e campainhas, correndo atrás das raparigas e atacando os homens com um movimento das ancas que transforma as bandoleiras de guizos em chicotes.

A função desta mascarada, em que os rapazes desempenham o papel de demónios à solta, é precisamente a de representar o caos e a desordem, o inverso dos valores dominantes na comunidade.

Representam o espírito do mal mas, neste curto interlúdio anual, gozam de total impunidade.

Apenas falam por berros ininteligíveis ou para recitar loas e comédias em que dão conta do que mais caricato, brejeiro ou condenável aconteceu na povoação ao longo do último ano.

Nestes arrazoados, chamam as coisas pelo nome, e os temas mais comuns são os casos de infidelidade conjugal e a leviandade desta ou daquela moça da aldeia que mais tenha dado nas vistas.

Amiúde as descrições são pormenorizadas e contadas com gestos expressivos. Também podem bater, as mais das vezes simbolicamente – por vezes esquecem o simbolismo e ajustam contas antigas.

Podem roubar peças de vestuário ou adornos às jovens, e não se abstêm de as apalpar profusamente.

Este ano, uma das personagens mais assoladas pelos caretos foi D. ana, uma senhora idosa atrás de quem corriam com vassouras roubadas – temporariamente – nas bancas das feiras, para lhe varrerem os pés. Que motivos teria dado a mulher durante o ano trasacto para merecer varredura tão enérgica? perguntámos. “não ligue, são coisas desta rapaziada nova” respondeu a senhora com evidente incomodidade.

A origem do Ritual

A origem deste ritual, claramente pagão, remonta à noite dos tempos, tempos muito anteriores ao cristianismo.

Mas foram-se adaptando ao evoluir dos tempos, embora sem perderem o simbolismo de uma prática daquilo que é o comportamento proibido ao longo de todo o ano.

E que apenas é tolerado quando os mancebos celebram simultaneamente o início de mais um ciclo de rejuvenescimento da terra, a sua ascensão ao estatuto de homem solteiro, com o advento da puberdade e a concomitante apresentação ao sexo feminino.

Mas se o ritual é muito antigo, a sua divulgação é relativamente recente. Só a partir dos finais dos anos 60 os etnógrafos começaram a debruçar-se mais profundamente sobre estes ritos carnavalescos tão característicos da região transmontana.

Praticamente desaparecido entre as décadas de 1960 e 1970, o Carnaval de Podence foi objeto de revalorização endógena e revivificação a partir de 1985, com a constituição de uma associação local, tendo sido objeto de grande projeção para o exterior, sobretudo a partir da década seguinte.

Hoje o valor da festa em cada aldeia quase de mede pelo número de fotógrafos e visitantes eruditos que aparecem para assistir aos rituais e deles darem conta.

O carnaval e os Caretos de Podence são uma mas mais genuínas e mediáticas representações do Carnaval de Portugal.



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