O ponto mais alto de Portugal Continental não é apenas e só o lugar mais alto. A serra da Estrela em toda a sua grandiosidade é um aglomerado de vida, magia e de muitos locais ainda por descobrir.

O maciço da Estrela é normalmente o centro das atenções no inverno, tornando-se ainda mais majestosa coberta pelo seu manto branco devido à queda de neve. No entanto, é depois do degelo que a maioria dos sues segredos e riquezas se colocam ao olhar dos mais curiosos.

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Serra da Estrela

Mãe de três importantes rios nacionais, a Serra da Estrela faz brotar o Mondego, o Zêzere e o Alva, é por entre vales glaciares e altos montanhosos, por fios de água e nascentes que maravilhas naturais acontecem.

Em pleno centro do país, alcançando o ponto mais alto do território continental, a serra da Estrela é atraente pelos seus imensos bosques, pelos seus imponentes rochedos, pelo queijo artesanal, a lã, os pastores, e por toda a vida que dela nasce.

A esta serra que há  muito chamam de Estrela, os romanos deram o nome de “Herminius mons” – os montes de Hermes, que ainda hoje uma zona serrana é referida como Montes Hermínios.

A imponente montanha portuguesa foi ainda assunto num dos contos mais conhecidos em todo o mundo, falamos do Moby Dick. No 41º capítulo de Herman Melville, o autor menciona os “prodigies related in old times of the inland Strello mountain in Portugal (near whose top there was said to be a lake in which the wrecks of ships floated up to the surface)” [Aqui, a verdade da vida iguala a lenda, mesmo quando se trata de uma velha história como a da serra da Estrela em Portugal, onde se diz existir perto do cume um lago em cuja superfície flutuam as carcaças de navios naufragados no oceano (…), Ed. Relógio d’Água].

Mas a história da Estrela é mais longínqua, e vem da era antes de cristo, com o seu herói Viriato. Vercingétorix ibérico, foi chefe, pastor-guerreiro da serra da Estrela que atacou as tropas de Roma nos cumes da montanha. Exemplo de um povo serrano e beirão. Exemplo de gentes de verdade.

Engane-se quem pensa que deste lugar frio e agreste brotam apenas rios, neve e vida natural. A intelectualidade também nasceu na serra. O “escritor dos afetos”, sim esse mesmo, António Alçada Baptista é um dos principais autores serranos.

Mas a serra pode ser lida ainda em obras de Vergílio Ferreira, natural de Melo, concelho de Gouveia, autor da “Manhã Submersa”. No livro “A Lã e a Neve” de Ferreira de Castro (1918-1974) encontramos ainda um romance sobre os trabalhadores da indústria de lanifícios. Também Aquilino Ribeiro (prosador português do Sec.XX) dizia num dos seus poemas que “A serra da Estrela é uma personalidade”.

Contudo, existem algumas realidades indissociáveis da Estrela, como são os sabores. O cabrito é rei da mesa dos serranos. Manda também numa mesa serrana espera-se que haja enchidos feitos na montanha. Já o arroz de carqueja é gastronomia nativa (para quem não conhece, a carqueja é uma planta medicinal que cresce na serra). Os lugares de prova são muitos e é difícil encontrar um mau restaurante na serra da Estrela.

Imperdoável será visitar a montanha e não provar o tão conhecido queijo da serra, acompanhado por um bom copo de vinho tinto e pelo pão cozido no forno.

O queijo é realmente uma das coroas da majestosa Estrela, mas a primeira referência a esta iguaria remonta a Gil Vicente, pai do teatro português. O singular produto, provavelmente introduzido pelos romanos, é um queijo curado e amanteigado. Produz-se com leite de ovelhas das raças Bordaleira Serra da Estrela e Churra Mondegueira.

Outro dos símbolos da montanha é o tão conhecido Cão Serra da Estrela. De grande porte, conhecido como companheiro, afável e destemido, o cão da serra é associado ao “guarda” rebanhos. Com muito pêlo, habituado ao frio serrano, cão muito genuíno, nunca abandona o deu dono nem o seu trabalho. O animal tem como objetivo proteger o rebanho, conduzi-lo serra acima e no caminho de regresso a casa.

Este trabalho era e é bastante precioso. Isto porque é a partir desta produção que a matéria-prima mais valiosa da região advém, estamos a falar da lã, a pura lã. Todo o processo é feito na Estrela – a tosquia, o desemaranhar, o fiar, o tecer. Tudo aqui é único. A indústria, o artesanato, o comércio com as mantas, as luvas, os casacos de pastor, os coletes, ou as pantufas. Conforto e genuinidade é o que de melhor existe para lhe oferecer nesta região.

O cume da montanha é o lugar mais procurado pelos turistas na época invernal. Um local privilegiado para os bonecos de neve mas também para a prática dos desportos de inverno (Ski, snowboard, trenós, entre outros…). Lá em cima encontrará várias pistas, num complexo amplo e modernizado. Fora do inverno, ski e snowboard podem ser praticados todo o ano no Skiparque de Manteigas. Mas os desportos na serra não se estreitam apenas ao ski e snowboard, muito pelo contrário. Nas outras estações, os desportos são muitos mais vastos. Rios brotam serra abaixo, e nada mais apropriado do que usufruir de vários trechos para canoagem.

O parapente é outro desporto rei na Estrela. Em Manteigas ou Linhares da Beira poderá encontrar ou escolas ou festivais específicos desta modalidade. Mas a modalidade soberana em tempo mais ameno, é sem dúvida alguma, as caminhadas. Com infindas rotas já delimitadas a serra oferece-lhe trilhos pelas lagoas, pelos Vales Glaciares, pelos bosques…
Na região serrana é possível passar várias semanas a passear e mesmo assim não conhecer tudo que ela envolve. A multiplicidade no turismo cultural é deslumbrante: as Antigas Judiarias, as Aldeias Históricas de Portugal, as Aldeias de Xisto, os castelos, os museus e monumentos. No turismo de ambiente e de desporto, a região é um dos locais portugueses de exceção.

Como pode constatar, quer visite a serra no verão ou no inverno, no outono ou na primavera, seja qual for a sua escolha, uma coisa será sempre garantida, o enamoramento pela majestosa serra da Estrela, o encanto pela neve, a paixão pelos desportos de inverno, pelas suas paisagens ou pelos seus segredos, algum destes atributos o farão regressar, abraçar novas aventuras e querer desfrutar ainda mais desta maravilha natural de Portugal.